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segunda-feira, 14 de maio de 2012

A independência da Argentina católica ante a efetivação da soberania em um território insular - A TFP argentina apela ao Governo, às Forças Armadas e ao povo

Catolicismo, N° 376 – Abril de 1982 – Ano XXXII, pag. 8

Plinio Corrêa de Oliveira 

O entusiasmo provocado pela recuperação das Malvinas fez com que a opinião pública de nosso País deixasse passar de forma inadver­tida várias circunstâncias fundamen­tais que importa destacar, pois são de vida ou de morte para todos os argentinos que amam deveras a Pátria.

1. Se bem que o ato de sobe­rania territorial sobre o Arquipélago seja importante, muitíssimo mais o é a sobrevivência de todo o País como nação independente do influxo e mesmo da tirania comunistas. A questão comunismo-anticomunismo é infinitamente maior que a questão das Malvinas.

2. Se para conservar as Mal­vinas, a Argentina vier a se aliar com a Rússia ou a aceitar o apoio mili­tar russo, teremos perdido muito mais do que ganho, pois a intenção óbvia da Rússia consiste em impor, mais cedo ou mais tarde, um go­verno-títere a nossa Pátria.

3. Há vários indícios de que a Rússia procura atrair nessa direção o Governo e a opinião pública de nosso País. No comunicado de 7 do corrente, já mencionamos como an­tecedentes a compra pela Rússia de quase 80% de nossos cereais, a assinatura de tratados sobre ques­tões nucleares, a presença de sub­marinos soviéticos em águas pró­ximas à Argentina e o oferecimento da embaixada russa de nos prestar auxílio militar. A estes indícios se junta agora o silêncio oficial guar­dado sobre o assunto, apesar das notícias internacionais (ver, por e­xemplo, "El Dia" de Montevidéu de 7 do corrente, em primeira página: "URSS ofereceu ajuda militar à Argentina e seus submarinos se manteriam vigilantes na área"). As­sim, um desmentido do Governo referente a qualquer tipo de com­promisso com a Rússia — o qual há tempos se vinha fazendo necessário — toma agora, a nosso ver, caráter de urgência.

4. Se a Rússia intervier do lado argentino, é quase certo que os Estados Unidos intervirão do lado inglês, desencadeando-se assim o jogo de todas as alianças. A III Guerra Mundial ter-se-ia desatado por causa das Ilhas Malvinas. E a Argentina formando parte do bloco soviético!

5. Essa situação criaria um pro­blema de consciência para todos os argentinos, que em sua imensa maioria são católicos. Jamais pode­riam eles aceitar uma aliança com a Rússia, e, pelo contrário, seu dever é resistir a ela, sob pena de pecado contra o primeiro Mandamento da Lei de Deus: amar a Deus sobre todas as coisas. Se por amor à inte­gridade territorial da Pátria se acei­tasse uma coalizão com os comunis­tas — que são inimigos declarados de Deus — se estaria afirmando implicitamente que a Pátria vale mais do que Deus. O que é uma blasfêmia intolerável. Os argentinos católicos deveriam, portanto, se opor por todos os meios lícitos a essa aliança. A Argentina, ou será católica ou não será. Com ou sem Malvinas.


Deus, que deu à nação argentina todo o seu território continental —invejado pelo mundo inteiro por sua fecundidade e extensão — veria que nos aliamos com os inimigos dEle, só para tornar efetivo, neste mo­mento e sem tardança, um direito so­bre as Ilhas Malvinas, que, por outro lado, ninguém nos pode negar.

6. É sintomático que até os ter­roristas "montoneros", com a assinatura de Mario Firmenich, tenham apoiado o Governo a propósito da recuperação das Malvinas. E, em entrevista à imprensa, afirmem que desfilarão na Plaza de Mayo, na manifestação convocada pela Rádio Rivadávia, para demonstrar sua "so­lidariedade militante contra a agres­são imperialista dos conservadores britânicos" (cfr. "Jornal da Tarde" de São Paulo de 10-4-82). Políticos e líderes sindicais peronistas são con­duzidos pelo Governo às Ilhas Mal­vinas como personalidades dignas de tal honra, e também o apoiam. Cumpre lembrar o papel que coube aos peronistas no crescimento do terrorismo, as medidas socializan­tes com que arruinaram a convi­vência e a economia nacionais, e o fato de que foram necessárias duas revoluções para os desalojar do Po­der. Em vista disso, o presente gesto do Governo, em consonância com as declarações dos próprios peronistas e dos "montoneros", faz recear que, a exemplo do que sucedeu na Rússia de 1917, os eventos bélicos sirvam de ocasião para que se implante no País um governo de esquerda. O qual, por outro lado, seria amplamente favorecido pela Rússia, se tivermos a desgraça de ser apoiados por ela no conflito com a Inglaterra.

7. Os integrantes das Forças Ar­madas argentinas, que em sua imen­sa maioria são católicos e anticomu­nistas, estão sendo arrastados a esta situação sem saída, envolvidos nu­ma atmosfera de entusiasmo pa­triótico.

Rogamos a Deus que na lúcida e patriótica reflexão das Forças Ar­madas estejam inteiramente presen­tes, na atual tensão, as conside­rações que acabamos de lhes apre­sentar, bem como a todo o País. Pedir-lhes esta ponderação num mo­mento de tão nobres ardores patrió­ticos de nenhum modo importa em pedir-lhes que debilitem seus esfor­ços na defesa da Pátria, mas, pelo contrário, em revigorá-los contra seu inimigo mais profundo e terrí­vel, que é o comunismo. O patrio­tismo que conduz à cegueira e ao suicídio não é patriotismo. É uma paixão manipulada por quem a pro­voca com objetivos friamente cal­culados.

8. A TFP pede ao Governo e às Forças Armadas que não permitam que esta situação, que pode facil­mente tornar-se calamitosa, conti­nue. É necessário esgotar todas as vias nobres e honestas que se nos apresentem para chegar a um acordo com o governo dos "conservadores britânicos" — tão odiados pelos "montoneros" — que ressalve nossos direitos, mas sobretudo preserve a Argentina do comunismo. E tam­bém preserve contra qualquer divi­são a aliança ocidental, pois essa divisão poderia dar ensejo não ape­nas a uma ação comunista em nosso País, como a um debilitamento irre­mediável da referida aliança.

Os responsáveis por muitos atos de entrega em face do comunismo, começando por Yalta e terminando pela Rodésia, talvez não o deplorem tanto. Mas na questão crucial de nosso tempo — a confrontação mundial comunismo-anticomunismo — nossa militância anticomunista deve ir além do entreguismo das grandes potências (que, diga-se entre parêntesis, em muitos outros pontos usam de rigor contra seus verdadei­ros amigos, mas não contra a Rús­sia e seus aliados).

Se nos atrevemos a enfrentar a Inglaterra por amor às Malvinas, não nos atreveremos a rechaçar as ofertas da Rússia por amor a Deus?

9. O Governo deve denunciar os numerosos tratados firmados com os países comunistas, que em seu conjunto sempre redundam em de­cepção e prejuízo para os países contratantes; e adotar uma política exterior de enfrentamento do comu­nismo, especialmente no continente americano. Se assim o fizer, por fidelidade à Lei de Deus, é provável que se consolide a reconquista das Malvinas e muito mais, porque tam­bém valem para as nações aquelas palavras de Nosso Senhor: "Buscai primeiro o Reino de Deus e sua Jus­tiça, e todas estas coisas vos serão dadas de. acréscimo" (Mt. VI, 33).

Buenos Aires, 12 de abril de 1982

Sociedade Argentina de Defesa da
Tradição, Família e Propriedade

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