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segunda-feira, 14 de maio de 2012

Garantia notarial, tabelioa...

"Folha de S. Paulo", 24 de julho de 1982
Plinio Corrêa de Oliveira 

Com a cessação das hostilidades nas Malvinas, todas as relações internacionais no mundo hispano-americano – que subitamente se haviam envenenado – parecem ter voltado à normalidade. De modo especial tal ocorreu com a mais aguda delas, a tensão entre a Venezuela e a Guiana, acerca do território de Essequibo. Bem entendido, a questão jurídico-diplomática a respeito dessa disputa ainda depende de solução. Mas a possibilidade de um conflito armado parece fora de cogitação, pelo menos a prazo breve ou médio.

Uma lição de toda esta efervescência, entretanto, nos ficou. É a artificialidade dessas tensões entre os povos irmãos, que somos todos os da América do Sul. Ninguém se preocupava seriamente entre nós, com essas pendengas territoriais. A maior parte delas dormia semi-esquecida, na penumbra dos arquivos. Foi só a Publicidade pô-las em relevo, e elas começaram a se agitar como fantasmas. Mas apenas a Publicidade afastou delas as luzes, e imediatamente voltaram para os arquivos. O que significa que o melhor de sua consistência era propagandístico.

Entretanto, sem embargo dessa artificialidade, não me parece que tais questões tenham perdido toda a atualidade. Pois a mesma causa que, em dado momento, conferiu atualidade artificial, mas dramática, a essas pendências, pode operar no sentido de as trazer novamente à tona. Dizendo-o, sou coerente comigo mesmo.

Com efeito, afirmei, em mais de um pronunciamento pela imprensa diária, que por detrás do incipiente terremoto diplomático-militar em nosso Continente, havia o empenho da Rússia soviética, em promover várias guerras simultâneas, que lançassem ao caos o bloco populacional católico maior do mundo. Pois ela entraria então com seus tendenciosos oferecimentos de ajuda militar e técnica a determinadas nações: por sua vez, os Estados Unidos se veriam compelidos a oferecer ajuda aos países não apoiados pela Rússia. Assim, o conflito se internacionalizaria. E, ao mesmo tempo, assumiria acentuado caráter ideológico. Tanto mais que, no interior dos países em choque, os comunistas e os anticomunistas entrariam em convulsão para disputar o poder. À guerra continental e mundial se somaria, pois, uma revolução ideológica continental. Guerra e revolução se interpenetrariam rapidamente. E o panorama oferecido pela América do Sul em sangue (e digo América do Sul, e não Hispano-América, porque o Brasil de nenhum modo conseguiria manter-se fora dessa sangueira) seria o de um imenso Vietnã. O resto já se vê.
Qual a base para todas essas conjecturas? É o nexo entre a guerra anglo-argentina e o simultâneo oferecimento de ajuda russa, de um lado, e, de outro lado, o súbito chamejar das dormentes pendências, às quais há pouco me referi. A ter continuado a guerra nas Malvinas, e a se terem agravado até degenerarem em guerras as outras tensões em nosso Continente, toda a América do Sul seria perdedora, e Moscou lucraria enormemente. E se Moscou lucraria, deve-se ter certeza moral de que ela estava por trás de tudo. É assim que raciocinam as polícias para descobrir os autores de crimes. E também os observadores políticos para descobrir autores de tramas.

* * *

Acresce que um expressivo documento de Fidel Castro pode ser citado em abono de toda essa conjecturação política. Em 16 de janeiro de 1966, 27 delegados latino-americanos presentes em Cuba para a Conferência Tricontinental de Havana, fundaram a Organización Latino-Americana de Solidariedad – OLAS, destinada a "utilizar todos os meios ao alcance, a fim de alcançar (sic) os movimentos de libertação". No ano seguinte a OLAS, promoveu, também em Havana, uma Conferência de Solidariedade dos Povos Latino Americanos. "Che" Guevara então presidente de honra da Conferência, havia lançado em abril do mesmo ano uma mensagem desenvolvendo o tema do programa comunista de Fidel Castro (vale dizer, de Moscou): a criação de "dois, três ou muitos Vietnãs" com o objetivo de incitar guerrilhas pelo mundo (cfr. Orlando Castro Hidalgo, "O espião de Fidel Castro", Artenova, São Paulo, 1973, p. 121). Velho plano, como se vê frustrado ao cabo de várias tentativas anteriores, e que recentemente não fez senão emergir novamente, apoiado já agora na tentativa de conflagrações entre quase todas as nações sul-americanas. Assim, o que o raciocínio político aponta, a prova histórica corrobora.

Estou persuadido de que a vietnamização da América do Sul é velho plano do qual de nenhum modo abrirá mão Moscou. E se aparecer no horizonte nova complicação política tendente a nos vietnamizar, o presente artigo tem uma utilidade como que notarial, tabelioa. Pois me servirá de prova de que, por detrás dessa nova complicação, desde o início estivera Moscou.

Moscou... o nome da famosa e hoje conspurcada capital dos czares me traz à mente assunto bem outro.

* * *

Um médico amigo mostrou-me um "Jornal do Fapec"( Fundo de Aperfeiçoamento e Pesquisa em Cardiologia) de maio deste ano, contendo farta propaganda da viagem a Moscou, promovida pela Sociedade Brasileira de Cardiologia, por ocasião do Congresso Mundial de Cardiologia em junho passado. Nele leio umas "informações úteis para os viajantes", as quais de fato são úteis também para os que não participaram da viagem. Pois os esclarecem sobre o fracasso do regime que a Rússia vai impondo a todo o mundo.

Assim, o "Jornal do Fapec" previne os viajantes: "É conveniente levar produtos de toucador, principalmente sabonetes, creme dental, desodorantes, etc.", naturalmente pela escassez ou má qualidade do produto em Moscou.

Outro aviso: "Na Rússia as refeições não estão incluídas, devendo ser comprados "cupons" para a alimentação na portaria do hotel". O cupom faz pensar em restaurantes estatais padronizados, para os quais os pobres turistas são distribuídos segundo um critério burocrático. A propaganda nada se atreve a dizer em louvor da qualidade e dos preços do alimento fornecido.

Um aviso enigmático sobre "dinheiro, travellers-checks, e qualquer moeda", bem como "jóias e outros valores", que devem "ser pormenorizadamente declarados... ao chegar à Rússia": "instruções serão fornecidas pelos guias no avião de chegada".

Outro aviso em que aparece a carranca do Estado policialesco: "passeios desacompanhados" (de agentes estatais, bem entendido) "poderão ser realizados somente na cidade onde se está, sem limitações e sem perigo, a qualquer hora". Ai!, pois, de quem viajar fora da zona permitida. Encontrará "limitações" e "perigo". Para reforçar a intimidação, vem uma norma: "As excursões para fora da cidade devem ser programadas pela Intourist", obviamente sob o olho irado e inquieto do poder público.

A carranca estatal se mostra ainda neste aviso: "Não há concessão por parte das companhias aéreas russas" quanto ao excesso de bagagem, o qual deve "ser pago pelo passageiro".

Em suma, nem liberdade, nem despreocupação, nem fartura, nem comodidade. Tal é a Rússia soviética, que se arroga o título de campeã dos direitos humanos no mundo.
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