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domingo, 13 de maio de 2012

Brasil, Argentina e Inglaterra face a um inimigo comum: o poderio soviético

Catolicismo, n° 377, maio de 1982 (www.catolicismo.com.br)

"Folha de S. Paulo", 7 de maio de 1982 [e em 13 jornais das principais capitais de Estado]

Plinio Corrêa de Oliveira

O Brasil ante a guerra das Malvinas (*) (**)
[Telex ao Presidente João Batista Figueiredo]

Senhor Presidente. - A leitura dos jornais torna claro que o agravamento crescente da crise anglo-argentina, concernente às Ilhas Malvinas, poderá colocar a qualquer momento nosso Governo em circunstâncias de tomar atitudes mais e mais próximas de um envolvimento. Diplomáticas de início, econômicas logo em seguida, podem essas medidas chegar a ser de tal peso no curso dos acontecimentos que, por fim, qualquer dos incidentes inesperados, tão freqüentes numa guerra, pode afetar nossa Nação, a ponto de a arrastar a uma condição de beligerância, em que ela bem sente, entretanto, que não pode nem deve entrar.


O envolvimento que a Nação não quer

No momento em que estas e outras grandes cogitações da mesma ordem estarão por certo presentes ao espírito de V. Excia., a quem cabe a gloriosa mas gravíssima responsabilidade de fixar o roteiro que o Brasil há de seguir, está na índole da abertura política implantada por V. Excia. ao longo de seu mandato, que de V. Excia. se acerquem com respeito, direi mesmo com patriótico afeto, todos os setores da opinião nacional, a fim de que assim, no momento das graves deliberações, V. Excia. tenha presente o pulsar de coração do Brasil inteiro.

A TFP e a fibra conservadora e cristã da opinião nacional

Entre essas correntes, Sr. Presidente, V. Excia. conhece que está a TFP, cuja voz se vem fazendo ouvir de ponta a ponta de nosso território, com ressonância suficiente para pôr em vibração - em muitos lances, com quanta intensidade! - a fibra conservadora e cristã que é uma das prestigiosas e incontestáveis componentes da mentalidade nacional.

Nessas condições, Sr. Presidente, peço vênia para manifestar a V. Excia. o que ocorre à TFP acerca da atual conjuntura internacional.

Presença naval soviética. Um símbolo. Uma ameaça

Está especialmente no ângulo de visão da TFP um dado da atual conjuntura, a que o noticiário dos meios de comunicação social não tem conferido todo o realce adequado: é - já antes da conflagração - a presença naval soviética nos mares sulinos, a qual permanece estável, tendo a seu alcance a zona que pouco depois entrou a conflagrar-se. E que tomouipso facto o caráter de símbolo do firme propósito russo de tirar partido dos acontecimentos que se desenrolarem.

Tirar partido em proveito do que, Sr. Presidente? De modo óbvio, em favor da expansão ideológica e colonialista do poderio soviético.

Tentáculos soviéticos na Argentina - na América do Sul

Tirar partido onde? De modo também óbvio, não só nos frios e escarpados penhascos das Malvinas, porém, segundo os bem conhecidos estilos do expansionismo soviético, para se estender eventualmente Argentina adentro, até onde puder. Ou seja, para que os tentáculos de Moscou alcancem o querido país, nosso vizinho e nosso irmão. - E por que só ele, se tão mais longe, pela América do Sul inteira, estes tentáculos já se desdobraram, e em outras ocasiões estenderam o terror, a insegurança e a desordem?
As esquerdas se acercam da Casa Rosada

Essa simbólica presença naval russa, a despertar a esperança de um apoio pelo menos diplomático e econômico de Moscou e de seus satélites à Argentina, o consenso geral não tem duvidado em a relacionar com as sucessivas visitas dos embaixadores da Rússia e da China à Chancelaria, e com a ostensiva aproximação ocorrida na Argentina, diretamente em virtude da ocupação das Ilhas, entre o governo - até então militantemente anticomunista - do Gen. Galtieri e as esquerdas argentinas de toda sorte.

Mas onde Moscou espera algum proveito nunca é de braços cruzados que o espera. E seu vezo de sempre intervir, ora pela astúcia, ora pela força, para produzir ou apressar os acontecimentos dos quais conta depois auferir vantagem.

Uma vez desembarcados... quem de lá os tira?

E isto, ainda que o Governo argentino, como afirma, não tenha presentemente a intenção de pedir o apoio russo. Como se vê, esse apoio, concretizado na presença naval soviética, se posta prestativo no seu caminho. Nos vaivéns imprevisíveis de uma guerra, quem pode garantir que a ajuda episódica de uma força naval russa, de um momento para outro não seja útil, ou quiçá até indispensável, à Argentina? Para expulsar do território continental algum contingente britânico ali desembarcado, digamos... Descem então, muito naturalmente, os soviéticos, para uma mera operação de limpeza. Mas depois... depois quem de lá conseguirá tirá-los?

Uma vez desembarcados na Argentina os russos, o que inopinada mas facilmente pode ocorrer, se desenrolarão automaticamente, e como que em bobina, todas as conseqüências que, no mundo inteiro, se tornam plausíveis - e em quantos pontos se têm tornado reais - logo a partir da presença militar russa.

Antes de tudo, a velada remessa de novas tropas, se aos contingentes enviados a título de socorro não se reconhece desinibidamente uma crescente hegemonia. Depois... Depois... Para o entrever basta olhar para as conseqüências que, em longa esteira de humilhações e de dores, se têm desdobrado onde quer que tropas soviéticas deitem as garras. Para completar a previsão, é só excogitar aqui em que termos essa ameaça poderia concretizar-se dentro do atual panorama ibero-americano, mais especificamente dentro do atual panorama brasileiro.

As eventuais correrias de tropas russas, argentinas e inglesas ensejariam incursões em território deste ou daquele país vizinho. As incursões russas, favorecidas, bem entendido, por guerrilhas locais de inspiração comunista, se intitulariam de "libertadoras". E no país invadido, ficaria desfraldado o estandarte da subversão.

Com tudo isto, a esperança animaria e poria em ação os organismos comunistas e socialistas que Moscou mantém vivos em toda a América Latina, em todo o Brasil, Sr. Presidente. A "esquerda católica" se agitaria ainda mais atrevidamente, pregando mais ou menos veladamente a luta de classes, ao mesmo tempo que difundindo (com ardis dulçurosos todos seus) a inércia entre os não-comunistas. Por fim, os oportunistas, correriam de encontro ao sol que se levanta. E o terrorismo reabriria as feridas de outrora em toda a América Latina, por meio de assaltos, seqüestros, atentados!

Nos extremos confins desse horizonte macabro, a experiência dolorosa mostra que quem quisesse resistir a essa agressão do super-poder soviético teria de recorrer ao super-poder norte-americano. Era a vietnamização do Brasil, da América espanhola, que teria começado.

O que mais importa é preservar o Brasil, a América do Sul

Tudo isto, Sr. Presidente, conduz à conclusão de que, face à guerra das Malvinas, embora muito importe conhecer quem, em nome da Justiça, deve ficar com as Ilhas, se a Inglaterra, se a Argentina (e nossos corações de ibero-americanos propendem todos por esta última), algo importa mais ainda, incomensuravelmente mais. É saber se a Argentina, o Brasil, todo o Continente sul-americano continuarão inteiramente livres das ingerências, das intrigas, das ameaças, das incursões à mão armada, e por fim da hegemonia soviética.

Confiança em nossas autoridades

Bem sei que o quadro das conseqüências da tensão anglo-argentina não se reduz só a isso. Sei também que, para ponderar todos os outros aspectos da questão - numerosos, complexos, emaranhados - tem largo tirocínio e riquíssima bagagem informativa nosso atual chefe de Estado, em cuja preclara carreira de homem público figuram longos anos à testa do SNI.

Por isto, acerca de nenhum desses aspectos aqui cogito.

Acima de tudo, o Reino de Deus

Mas há uma máxima, Sr. Presidente, que os homens, arrastados no torvelinho das questões terrenas, são por vezes propensos a olvidar: "Quaerite ergo primum regnum Dei et justitiam ejus: et haec omnia adjicientur vobis" (Mt. VI, 33). Para o Brasil, para a Argentina, para os países irmãos da América do Sul, "procuremos antes de tudo o Reino de Deus e sua Justiça" e obteremos tudo o mais. Ou seja, acima de tudo mantenhamos afastado o inexorável inimigo de Deus, e a misericórdia deste nos galardoará com o resto.

Esta máxima evangélica, tão sublime e tão suave, não é habitualmente aquilatada em seu inteiro alcance pelos homens públicos de todo o mundo, nestes nossos dias laicos e agitados. Tornando-a presente a V. Excia., em espírito de cooperação respeitosa e cordial, estou certo de agir como melhor não poderia fazer o mais devotado de seus amigos ou cooperadores.

E porque o veio cristão e conservador da alma brasileira é todo voltado para a observância enlevada dessa nobre e luminosa máxima, estou certo também de agir, quanto em mim está, para evitar ao nosso povo, dolorosos transes de alma, lembrando esta máxima ao Supremo Magistrado de meu País.

O povo brasileiro, ordeiro e inarredavelmente católico, por enquanto ainda desprevenido e tranqüilo, que surpresa terá, Sr. Presidente, que vibrações de alma sentirá, e poderá extrovertidamente fazer sentir, caso as operações militares nas águas marítimas do Sul ensejem o desembarque de ingleses, e logo depois de russos, em território argentino! Russos, sim, russos soviéticos, os quais na ordem profunda dos fatos, são inimigos tanto dos ingleses, quanto dos argentinos, como de toda nação que não professe seu tenebroso credo ateu, nem se resigne em lhes ser humilde escrava...

Que estranheza, que desconcerto, que sensação alucinante de estarem desidentificados da missão histórica da Terra de Santa Cruz, sentirão os brasileiros católicos e conservadores quando notarem que os recursos táticos da configuração geográfica do País, as riquezas de seu subsolo, de sua agricultura e de sua indústria estarão sendo úteis, em última análise, para desígnios dos inimigos de Deus, isto é, da superpotência ideológica e imperialista cumulativamente inimiga da Inglaterra, da Argentina, em suma, de tudo quanto não seja ateísmo e ditadura do proletariado!

A fim de poupar ao nosso povo o drama de consciência que agudamente sofreria com tudo isso, peço vênia para atrair para este ponto primacial a alta atenção de V. Excia.

Assim fazendo, mantenho-me fiel à vocação ininterruptamente seguida pela TFP nestas décadas de atuação pública.

Queira V. Excia., Sr. Presidente, ver na presente mensagem o cristão patriotismo da TFP, bem como todo o desejo de cooperação que a anima em relação ao Governo nacional. É rogando pela pessoa ilustre de V. Excia., para que a graça de Deus o ilumine na procura das trilhas que seguiremos, e para que a Providência cumule de êxito a atuação de V. Excia. à frente do País, que com toda a TFP elevo preces a Nossa Senhora Aparecida, Rainha do Brasil.

A Ela suplicamos, acima de tudo, não consinta em que comunistas russos, inimigos de Deus, depois de eventuais andanças pelo território argentino, acabem por transformar em terra da foice e do martelo a Terra de Santa Cruz.

PLINIO CORRÊA DE OLIVEIRA
Presidente do Conselho Nacional

(*) Os subtítulos são da versão publicada em "Catolicismo".
(**) Para mais detalhes sobre as campanhas de esclarecimentos das TFP's sobre a guerra das Malvinas ver: "Guerra das Malvinas: a batalha das TFP's contra a interferência de Moscou", em "Um Homem, uma Obra, uma Gesta - Homenagem das TFP's a Plinio Corrêa de Oliveira"




26 ANOS DEPOIS, NÚMERO DOIS DA KGB CONFIRMA ACERTO DE MANIFESTO DE PLINIO CORRÊA DE OLIVEIRA!


13/01/2008 - 02h16

Russo fala sobre como financiou comunistas na América do Sul

IGOR GIELOW - do enviado especial a Moscou da Folha de S.Paulo

A América Latina foi uma "praça de armas" usada pela União Soviética na Guerra Fria contra os EUA, mas depois da crise dos mísseis de 1962 o conflito tornou-se indireto para evitar a repetição do risco de uma guerra nuclear. Apoio a guerrilhas anti-EUA na América Central, mais para espezinhar Washington do que para implantar o comunismo na região, foram o modelo favorito de ação.
Isso só mudou em 1982, quando Moscou tentou fornecer foguetes e imagens de satélite aos argentinos durante o embate com os britânicos após a invasão das Malvinas, mas a operação fracassou. E, apesar da retórica da ditadura militar sobre o perigo comunista, o Kremlin ignorou solenemente os movimentos de esquerda do Brasil entre 1964 e 1985, embora usasse algumas dezenas de agentes baseados no país para espionar os vizinhos.
[...]
Mas o general aposentado Nikolai Sergeievitch Leonov é mais do que isso. Aos 79 anos, com expressão clara num espanhol irretocável, ele tem sua trajetória confundida com as quatro últimas décadas da Guerra Fria e da União Soviética. "Era apenas um oficial", diz, com a discrição essencial no ofício de quem foi o número dois do Comitê de Segurança do Estado, conhecido por suas temidas iniciais em russo, KGB, nos anos finais do regime comunista em Moscou.
[...]
A Guerra das Malvinas
Apesar de já ter citado o apoio militar soviético a Buenos Aires em duas entrevistas anteriores (em 1998 e em 2002), pela primeira vez Leonov detalhou do que se tratava a iniciativa de Moscou --já nos estertores da gestão Brejnev, que morreria no fim de 1982.
Com a guerra já iniciada, em março daquele ano o adido soviético na capital argentina procurou o Ministério das Relações Exteriores da junta militar do general Leopoldo Galtieri. "Inicialmente, queríamos fornecer armamentos diretamente, mas os argentinos se recusavam a algo entre governos diretamente. Queriam algo no nível de empresas", diz Leonov.
Para ele, "os argentinos estavam muito arrogantes, porque achavam que a operação nas Malvinas ia ser fácil". "Contudo, estávamos dispostos a ir muito longe, muito mais do que se pensa. Eles precisavam de mísseis terra-ar, ar-mar e mar-mar, mas não se atreveram a comprar armamento soviético. Então tentamos fornecer imagens de satélite da movimentação da Força Expedicionária Britânica no Atlântico, mas acho que eles desconfiaram dos dados que nós enviamos e os contatos morreram", lembra.
Depois, segundo Leonov, o governo peruano, que já tinha reatado relações com Moscou e contava com muito material militar soviético, ofereceu mísseis e aviões de caça a Buenos Aires --mais como uma provocação ao Chile, adversário comum de ambos os governos. Mas não houve resposta.
O general, que à época era o diretor do Departamento Analítico-Informativo da KGB, afirma que dois motivos levaram a essa posição argentina. "Havia um fator ideológico, eles eram uma ditadura anticomunista, não poderiam introduzir armas soviéticas no cenário de guerra. Preferiam perder a guerra a parecer aliados dos soviéticos. E havia a pressão dos EUA, que eram aliados dos ingleses, mas também apoiaram a junta. De todo modo, eles perderam tudo. A guerra, o regime, eles se deram mal."
Efetivamente, à época da guerra os britânicos localizaram barcos e submarinos soviéticos perto das águas do conflito, e bastou essa insinuação de apoio, que nada teve a ver com as negociações secretas em Buenos Aires, para que grupos como a Tradição, Família e Propriedade argentinos fossem às ruas para criticar o até então popular governo em guerra.


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