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terça-feira, 6 de março de 2012

O caso da Carolina do Norte - Medida extrema ou louvável?

Bem, a alguns dias me deparei com uma notícia um tanto curiosa, mas que pode nos servir para fazer um artigo sobre este tema tão atual, e polêmico: Internet.

Muitos já devem tê-la visto por aí, pois circulou a internet e foi assunto de matéria até no Fantástico último. Uso a notícia, divulgada no portal Yahoo! :


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Pai de adolescente norte-americana dá nove tiros no laptop dela por 'malcriação' pelo Facebook 


Desapontado ao descobrir que sua filha fez injustas reclamações sobre seus pais e madrasta no Facebook, um pai norte-americano não teve dúvidas: deu nove tiros no laptop da moçoila.
A filha de Tommy Jordan, de nome Hanna, cansada de ser “explorada” pelos pais com tarefas domésticas, postou no Facebook um protesto público, desrespeitoso e cheio de palavrões, a respeito do “trabalho escravo” a que os pais a obrigam diariamente. A adolescente bloqueou o pai, a mãe e a madrasta para que não lessem a mensagem.
Jordan é diretor da empresa de TI Twisted Networx e, enquanto gastava cerca de meio dia e US$ 130 para fazer um upgrade no notebook da filha, descobriu a mensagem.

Como reação, atirou no notebook da garota. A atitude pode parecer drástica, mas Jordan explica que Hanna já havia feito isso antes, ficou três meses de castigo e, pelo visto, não entendeu o recado. Jordan ainda conta que os “trabalhos forçados” a que Hanna é submetida incluem apenas fazer sua cama de manhã, ir à escola e lavar sua própria roupa, entre outros serviços menores. Ele teve apoio maciço de pais e filhos por toda a internet.

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Embora o assunto seja polêmico, como diz acima, Tommy Jordan teve apoio maciço de pais e filhos por toda a internet. É neste contexto, que gostaria de, com base em dois artigos de capa, publicados na Revista Catolicismo, explicitar um pouco o tema.

Muitos podem discordar da maneira como, acima, denominei o tema Internet: Polêmico. Mas, nada mais adequado. Muitos estudiosos estão estudando o paralelo existente entre as redes de contato sociais online e as sociedades tribais. Muitos podem se perguntar: Mas o que uma coisa tem a ver com a  outra? 

Em dezembro de 2007, o "The New York Times" em notícia, mostrou que estudiosos vêem no "bate-papo coletivo" nas redes sociais, na procura de novos amigos nas redes sociais e todas as outras formas de relacionamento social existentes aí, o ressurgimento de antigos modelos de comunicação oral, intimidade e relacionamentos horizontais característicos de uma tribo.(1)

A Quarta Revolução

A Sociedade tribal, com a qual sonham as correntes radicais da antropologia moderna, como por exemplo o estruturalismo, onde os defensores dessas novas teorias alegam que a vida tribal é a síntese da liberdade individual, do coletivismo consensual e da igualdade. E admitem que os indivíduos se dissolveriam na personalidade coletiva da tribo, deixando de lado os velhos padrões de reflexão individual, vontade e sensibilidade.

Como este processo de auto-identificação com a tribo só é praticável dentro da estrutura de pequenos grupos de pessoas, essa Quarta Revolução exige o desmembramento da sociedade em pequenas comunidades rurais. Seria o fim das grandes cidades, dos complexos industriais e, de modo geral, das gigantescas infra-estruturas de hoje. Tudo semelhante à já mencionada revolução cultural de Mao Tsé-tung na China e à expulsão dos habitantes das cidades para os campos pelo movimento comunista guerrilheiro Khmer Rouge no Camboja.

Efeitos da “revolução digital” nas gerações jovens

Segundo Plinio Corrêa de Oliveira, os sinais precursores dessa Quarta Revolução entre os jovens se faziam sentir de modo particular pela extravagância no trajar, pela crescente tendência ao nudismo, pela informalidade das maneiras, pela idolatria da natureza e da ecologia, pela hipertrofia dos sentidos e da imaginação e a simultânea atrofia da razão na assim chamada civilização da imagem. Sem mencionar a tendência para um estilo de vida errante, comum entre os hippies da geração da flor.

A revolução digital estava dando então seus primeiros passos no relativo isolamento das universidades, nos órgãos governamentais e no mundo dos negócios. Os computadores pessoais e a Internet estão agora disponíveis em nível universal, e a revolução digital atingiu todas as camadas da população. Se ela tivesse chegado alguns anos antes, seus efeitos sobre as gerações mais jovens certamente teriam sido mencionados em Revolução e Contra-Revolução como um sintoma da Quarta Revolução. 

Hoje, muitos ideólogos revolucionários radicais, embora encarem o problema sob um prisma oposto e aplaudam tais mudanças, descrevem os mesmos fenômenos apontados trinta anos atrás por Plinio Corrêa de Oliveira.

Comprovação científica de males psíquicos produzidos pela Internet

A maior parte das críticas, senão todas, que se referem à Internet, a criticam unicamente pela facilidade que os internautas têm em entrar no sinistro mundo da pornografia, ou mesmo do ocultismo satânico. Tal crítica procede, e é muito boa, pois milhões de usuários que ficariam alheios a tais aberrações acabam caindo nestes e outros pecados, devido a esta facilidade.

Tal facilidade, tais pecados são agravados sobretudo na fase da adolescência, onde as tentações se avolumam, e podem chegar ao pecado através de um contato pouco edificante no Facebook, uma imagem imoral encontrada na pesquisa de imagens do Google, um vídeo anexado em uma mensagem de Email, são tantas as possibilidades, e tal é o risco que deve-se tomar muito, muito, mas muito cuidado.

Outra ocasião típica são os sites esotéricos e ocultistas. Renomados exorcistas chamam a atenção para o fato de que grande parte das possessões diabólicas nos dias de hoje se dão por causa de sites desse gênero, facilmente encontrados na web.

Portanto, toda cautela neste terreno é pouca. Acertam os pais e educadores que tomam o devido cuidado para que seus filhos e educandos evitem tais ocasiões. (lembrando o caso da Carolina do Norte, publicado acima).

Mas será que o único mal da Internet é este? Se acabarmos com a pornografia, imoralidade, e ocultismo cibernéticos solucionaremos o problema? A resposta é não.

Revolução Tendencial


Especialistas de diversas áreas dizem que a Internet possui características que podem influenciar a fundo a mentalidade de seus usuários. Ainda que não houvesse pornografia, imoralidade e ocultismo na rede mundial de computadores, é uma verdadeira revolução nas tendências (2) que ela está operando. Para esse efeito, consultamos diversos livros e artigos a respeito da temática, bem como conferências do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira sobre a cibernética, assunto sobre o qual ele tratou nas décadas de 80 e 90.

Nosso objetivo aqui não é negar benefícios práticos que a tecnologia da informação possa ter oferecido em muitas áreas: pesquisa, rapidez de comunicação, praticidade de redação etc. O que pretendemos é alertar os leitores para aspectos geralmente silenciados do problema, o que lhes facilitará inclusive um uso mais consciencioso da internet e demais mídias eletrônicas.

Três casos ilustrativos


A) O primeiro é a experiência que Susan Maushart, mãe australiana, resolveu realizar juntamente com seus três filhos adolescentes: eles passaram seis meses sem televisão, vídeo games, iPods, nem computadores. O resultado foi impressionante, e está documentado no livro The Winter of Our Disconnect (3) (O Inverno de Nossa Desconexão). 


A filha mais velha foi a que mais rapidamente se adaptou, pois já havia adquirido o bom hábito da leitura. O rapaz, que passava horas em video game, aprendeu um instrumento musical e percebeu que tinha talento para música. A filha mais nova foi a que mais dificilmente se adaptou à inusitada situação, mas depois se acostumou. 


O resultado foi um acréscimo considerável no rendimento escolar de todos os filhos (inclusive a mais nova, que obtinha péssimas notas). O rapaz desistiu de jogos virtuais, vendeu seu video game e hoje estuda música na universidade. Todos os filhos, afirma Susan Maushart, saíram da experiência de um estado de cognitus interruptus(pensamento interrompido) e passaram a pensar e refletir melhor. 

Mas a principal vantagem foi uma união maior da família, a qual passou a conviver mais entre si, com animados jantares e boas conversas. Além disso, descobriram prazeres simples e agradáveis como ouvir música em conjunto (não só cada um com seu fone de ouvido), jogos de tabuleiro, rever antigas fotografias de família etc. (4)

Sobre o fenômeno, comenta o jornal “La Republica”, de Montevidéu (16-6-11): “A necessidade dos meios técnicos de comunicação e trabalho parece nos absorver e até nos escravizar. Susan demonstrou que é uma escravização voluntária, da qual se pode escapar e com muitos benefícios”.

b) Outro caso exposto na edição de Catolicismo de dezembro de 2010 foi o de cinco neurocientistas americanos que passaram um mês em uma região dos Estados Unidos, sem celulares nem internet, para investigar se o uso intensivo de artefatos digitais pode mudar o modo de pensar e a conduta dos homens. David Strayer, professor da Universidade de Utah, concluiu que a atenção, a memória e o aprendizado dos cidadãos modernos ficam afetados.



 Para Paul Atchley, professor da Universidade de Kansas, o uso continuado da informática inibe o pensamento profundo, causa ansiedade, dependência e prejudica a saúde. O Prof. Art Kramer, da Universidade de Illinois, notou que no isolamento o grupo ficou muito mais refletido, tranquilo e voltado para a realidade.

c) Um caso semelhante se deu com Nicholas Carr, um intelectual norte-americano, diplomado em literatura pela Universidade de Harvard e pela Dartmouth College. Imerso após alguns anos no mundo das mídias eletrônicas a ponto de se tornar um especialista em tecnologia da informação, começou a perceber que seu cérebro não funcionava como antes. As longas leituras tornaram-se mais raras, a concentração ficou enfraquecida e difícil, a memória constantemente o traía. Decidiu então fazer uma experiência radical: foi com sua esposa morar nas montanhas do Colorado (EUA), sem celulares nem internet. Durante dois anos, fez profundas e abundantes pesquisas em neuroplasticidade, história da comunicação e informática. Em 2009, lançou um livro que logo se tornou best-seller: Os Superficiais – Como a internet está mudando nosso modo de pensar, ler e recordar (5).

A obra contém inúmeras pesquisas e dados científicos, alguns dos quais mencionamos neste artigo, para ajudar a responder à pergunta: quais são as causas dessa influência da internet na psicologia e na vida?

Tudo através da internet


O primeiro fator decisivo para a influência que a internet exerce é sua universalidade, não só no sentido de se estender ao mundo inteiro, mas a quase todas as áreas da atividade cotidiana. Como explica Nicholas Carr, a internet tornou-se “uma máquina de poder incomensurável, e está ao pé da letra subjugando a maior parte das outras tecnologias intelectuais. Está se tornando nosso processador de texto e nossa imprensa, nosso mapa e nosso relógio, nossa calculadora e nosso telefone, nosso correio e nossa biblioteca, nosso rádio e nossa TV” (pp. 83-82).

Ou seja, atividades que antes realizávamos em diferentes lugares vão gradualmente se restringindo à tela do computador. A cada ano que passa ficamos mais tempo na rede, e isso com nosso consentimento: “A internet tem demonstrado ser tão útil de tantas formas, que nósacabamos por dar as boas-vindas a qualquer expansão de seu uso” (p. 88).

A internet substitui o papel das outras mídias, mas difere destas em ponto muito importante: é bidirecional. Ao contrário de uma revista, por exemplo, ou de um programa de rádio, em que as pessoas somente recebem a informação, a internet nos permite interagir e responder a quase todas suas solicitações e estímulos, em tempo real.

Com poucos cliques, podemos comprar os objetos da propaganda. O anúncio de um relógio de pulso, por exemplo, em uma revista, pode nos dar um grande desejo de obter o objeto (já tão ‘retrógrado’, aliás...). Mas para isso precisamos parar a leitura, deixar a revista e ir até a loja. Com a internet, não: vemos a propaganda, ‘clicamos’ na imagem, fazemos o pedido e rastreamos o frete. Um artigo de jornal apenas nos dá informações. Na internet, o mesmo artigo permite-nos fazer comentários e relacionar com outros artigos do mesmo ou de outros autores.

“A interatividade da internet – comenta Carr – transformou-a também em uma ‘casa de encontro global’, onde as pessoas se reúnem para chats, fofocas e discussões, através do Facebook, Twitter, MySpace, e todo tipo de redes socias (e às vezes antissociais)” (p.85).

Muitos veem a universalidade e interatividade da internet como um avanço, e de fato o é sob alguns aspectos. Mas “raramente nós paramos para ponderar, e muito menos questionar, a revolução midiática que tem se dado em torno de nós, em nossos lares, nossos locais de trabalho, nossas escolas” (p. 88).

Uma verdadeira patologia

De tal maneira a internet convida ao uso desmesurado, que ao estudarem desde 1995 os efeitos dessa mídia nos pacientes, psicólogos e psiquiatras começaram a classificar um novo tipo de dependência patológica: o transtorno de dependência à internet – TDI. (6)

Segundo a psicóloga-criminologista suíça Martine Courvoisier, “os relatórios de psicoterapeutas indicam que os usuários compulsivos e patológicos da internet se tornam dependentes da mesma forma que um toxicômano ou um alcoólatra se tornam dependentes da droga ou da bebida, e que os efeitos dessa dependência são igualmente devastadores na vida da pessoa”. (7) 

Sintomas do Transtorno de Dependência à Internet
O TDI pode se manifestar por três ou mais dos sinais seguintes, durante um período de 12 meses.8

I. Necessidade de aumentar o tempo passado na internet para atingir a saciedade; ou sentimento de saciedade diminuído se o tempo passado na internet permanece o mesmo.
II. Síndrome de Falta (manifestando-se por A ou B)
(A) Características da síndrome de falta: 1,2 e 3:
1. Se há a redução ou cessação da utilização intensa e prolongada da internet
2. Se dois ou mais dos seguintes sinais, desenvolvidos durante vários dias do mesmo mês após a redução ou cessação da utilização da internet:
a. agitação psicomotora
b. ansiedade
c. pensamentos obsessivos a propósito da internet
d. imaginações ou sonhos a propósito da internet
e. movimentos dos dedos mexendo no teclado, voluntários ou involuntários
3. Se os sintomas acima mencionados causam entrave ou lesam o funcionamento social e ocupacional, ou qualquer outro domínio importante.
(B) Utilização da internet para aliviar ou evitar os sintomas de falta.

III. A internet é frequentemente desejada por uma duração mais longa do que a que se tinha previsto.
IV. O desejo é persistente, mas os esforços em parar ou controlar a utilização da internet mostram-se vãos.
V. Uma grande parte do tempo é consagrada a atividades ligadas à utilização da internet.
VI. As discussões a propósito da internet na vida cotidiana são muito frequentes.
VII. As atividades familiares, sociais, ocupacionais importantes são abandonadas ou diminuídas em sua duração ou frequência por causa da utilização da internet.
VIII. Manter a utilização da internet apesar do conhecimento da existência de um problema físico ou familiar, social ou ocupacional, recorrente ou persistente, com tendência a exacerbar-se devido a essa utilização.

Dissipação do pensamento: o papel dos links

Mesmo quando não chega às raias da dependência patológica, a internet exerce forte influência sobre nosso modo de raciocinar. Aos poucos ela nos afasta do pensamento profundo, da reflexão e do recolhimento. Isso se dá por três elementos, sobretudo: os hiperlinks, a acessibilidade e a multitarefa.

Hiperlinks — ou links, por simplificação — são palavras ou figuras que se posicionam dentro ou ao redor do texto principal e que, ao serem acionadas pelo cursor (a “seta do mouse”), remetem para páginas diferentes da que estamos considerando naquele momento.

Na década de 80 houve muito entusiasmo a respeito do uso de computador, e os educadores estavam convencidos de que a introdução de links nos textos seria um “salto qualitativo” em matéria didática. No fim da década, o otimismo começou a diminuir, pois as pesquisas de então já mostravam que “avaliar os links e navegar por eles envolve tarefas mentalmente difíceis de solução de problemas que são alheios ao próprio ato de ler. Decifrar os links aumenta substancialmente a ‘sobrecarga cognocitiva’ dos leitores e enfraquece assim sua capacidade de compreender e de reter o que leem” (p. 126).

Um experimento de 1990 revelou que os leitores de textos com links geralmente não podiam lembrar o que eles leram ou não leram. Em um outro estudo, naquele mesmo ano, os pesquisadores apresentaram uma série de perguntas sobre um texto. As pessoas que leram o texto em papel tiveram um resultado bem melhor do que as que o fizeram em texto eletrônico recheado de links.

Outra experiência, de 1999, realizado por Erping Zhu, revelou que quanto maior o número de links em um texto, menor a compreensão. Segundo ele, “há uma forte correlação entre o número de links e a desorientação ou ‘sobrecarga cognoscitiva’. Ler e compreender pressupõe estabelecer relações entre conceitos, tirar conclusões, ativar o conhecimento prévio e sintetizar as idéias principais. A desorientação ou sobrecarga cognoscitiva pode assim interferir nas atividades cognoscitivas de leitura e compreensão” (p. 129).

Em 2005, Diana De Stefano e Joanne Lefèvre, psicólogas da Universidade de Carleton (Canadá), fizeram um estudo comparativo com 38 experimentos envolvendo o uso de links. Sua conclusão foi análoga à das pesquisas anteriores.

Segundo Carr, “as recentes pesquisas continuam a mostrar que aqueles que leem um texto linear compreendem mais, recordam mais e aprendem mais do que aqueles que leem um texto salpicado de links” (p. 127).

Rapidez de acesso à informação

O segundo elemento dispersivo é a acessibilidade, isto é, a facilidade com que na internet se pode ‘pular’ de um documento a outro, de uma página a outra, de uma informação a outra:“Assim como os links, a facilidade e rápido acesso às buscas tornam muito mais simples pular entre documentos digitais do que pular entre os impressos. Nossa ligação com qualquer texto se torna mais tênue, mais efêmera” (p. 90).

A facilidade de busca traz consigo a fragmentação dos documentos virtuais. O mecanismo de busca — como Google ou Bing — desperta a atenção do internauta para um fragmento de texto, algumas palavras ou frases com forte relevância no assunto procurado. Mas os mesmos mecanismos proporcionam pouco incentivo para se considerar o trabalho em seu conjunto: “Nós não vemos a floresta quando buscamos na Web. Nós não vemos sequer as árvores. Nós vemos galhos e folhas” (p. 90).

Conclusão e sugestões práticas

De quanto foi aqui analisado, podemos concluir que, além dos perigos morais da internet, há graves prejuízos para a psicologia humana. Enganar-se-ia quem pensasse que estes últimos são secundários. Pois o pensamento profundo e concatenado, a estabilidade psíquica e o recolhimento são pressupostos indispensáveis para alcançarmos a virtude da sabedoria,13 enquanto “com a internet, a mente calma, concentrada e recolhida está sendo substituída por um novo tipo de mente” (p. 10).

O homem foi criado para conhecer, amar e servir a Deus, e sem a contemplação da ordem do universo e das verdades da fé, componentes da virtude da sabedoria, o homem não pode atingir sua finalidade.

Segundo D. Chautard, famoso frade cisterciense francês, mestre da espiritualidade católica, para que a vida da graça permaneça e aumente em nossa alma, é primordial o recolhimento para, “no decurso das ocupações, conservar o coração numa pureza e generosidade suficientemente grandes para não ser abafada a voz de Jesus”.14 Para ele,“os ventos da dispersão impedem a alma de viver unida a Deus”.15

Ora, ao dificultar o recolhimento e a meditação do espírito humano, e roubar o tempo e a atenção que deveriam ser empregados na contemplação e no convívio, a internet pode nos privar das condições psicológicas de uma sadia vida espiritual.

Alguém dirá: há atividades na internet que se tornaram hoje em dia indispensáveis para muitos. Como, então, resolver esse problema na prática?

Respondo dizendo primeiramente que nunca uma dificuldade é maior do que a proteção que Deus sempre nos concede. Assim sendo, a primeira sugestão é a oração. Pedirmos a Nossa Senhora que nos obtenha o Bom Conselho, para sabermos utilizar a internet sem nos deixarmos levar por esses males.

Em segundo lugar, ter bem presentes os riscos; conhecer inteiramente o problema já representa 50% da solução. A prece, o conhecimento dos perigos e o bom senso serão bons guias em cada caso particular.

Por fim, é indispensável exercer o domínio sobre si mesmo. Uma das formas de atingir tal objetivo consiste em planejar as atividades que serão realizadas na internet, e fazer somente aquilo que for previsto. Não usar a internet como fonte principal de lazer. Retomar boas leituras e conversas. Criar em si o hábito de analisar o mundo exterior, as obras de Deus e as boas realizações dos homens, como as belas construções e verdadeiras produções artísticas, além do apreço por um sadio convívio familiar e social.

NOTA

Redigi este artigo, me utilizando de um caso recente divulgado largamente na internet, para explicitar um pouco este tema, internet, com base em excertos de dois artigos, ambos publicados na Revista Catolicismo.
Ambos estão disponíveis, na íntegra, em:

Daniel Félix de Sousa Martins

José Antonio Ureta 

In Domina
Allysson Vidal Vasconcelos

Notas:


1. Cfr. ALEX WRIGHT, “Friending, Ancient or Otherwise”, New York Times, December 2, 2007.
2. A Revolução nas Tendências é estudada no ensaio Revolução e Contra-Revolução, obra mestra de Plinio Corrêa de Oliveira, capítulos V e VI, Artpress Indústria Gráfica e Editora LTDA., São Paulo, 1998.
3. The Winter of our Disconnect, Profile Books Ltd., Londres, 2011.
4. Cfr. sinopse em http://www.ipco.org.br/home/noticias/seis-meses-de-liberdade
5. Nicholas Carr, The Shallows – How the internet is changing the way we think, read and remember, Atlantic Books, Londres, 2010. As citações do artigo proveem deste livro, salvo indicação em contrário.
6. Em inglês, IAD - Internet Addiction Disorder. No Brasil, o conceito de dependência à internet começou a ser divulgado desde o ano 2000, pela psicóloga Luciana Nunes, que trouxe o conceito já estudado nos Estados Unidos desde 1995 por Dr. Ivan Goldberg e Dra. Kinmberly Young.
7. Trouble de Dependance à Internet – IAD - Notions générales, disponível em http://www.actioninnocence.org/suisse/Fichiers/ModeleContenu/214/Fichiers/D%C3%A9pendance%20Internet.pdf  Acesso em 11 Ago. 2011.

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