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sexta-feira, 2 de agosto de 2013

A graça na vida espiritual

“O Legionário”, N.º 123, 2 de julho de 1933
Plinio Corrêa de Oliveira

Em meu último artigo, criticava o erro de certos católicos que vêem na vida piedosa uma série de atos de cortesia praticados em honra de um Deus indiferente ou distante, ou uma mera expansão sentimental de temperamentos exaltados.

Este erro funestíssimo provém, em parte, da ignorância que se nota sobre o papel da graça na vida espiritual.

É ensinamento católico, do qual não podemos dissentir, que, sem o auxílio da graça, o homem não pode perseverar por muito tempo no cumprimento integral dos Mandamentos, e que, sem ele, é-lhe impossível pronunciar sequer, devotamente, o Santíssimo Nome de Jesus.

O homem toma todas as suas deliberações e forma todos os seus propósitos, servindo-se exclusivamente de suas faculdades intelectuais e volitivas. Assim, por exemplo, fazer uma viagem, resolver um negócio, comprar um livro, etc., são atos que dependem somente da vontade e da inteligência do homem. A esta regra, porém, não obedece a vida espiritual, em que intervém um novo fator, que é a graça.

A graça sobrenatural é um auxílio que Deus dá gratuitamente à alma, para a sua salvação. A graça pode ser, pois, uma luz especial concedida por Deus à inteligência, que lhe faculta a penetração clara das verdades necessárias para a salvação, ou um auxílio dado à vontade, para que vença os obstáculos que a distanciam do bem percebido pela inteligência.

Sem esta iluminação, pois, ou este auxílio, é impossível a prática completa e prolongada da virtude.

Este auxílio, Deus no-lo dá de forma tal que possamos aceitá-lo ou rejeitá-lo livremente; a graça não destrói, portanto, o livre arbítrio. Mas ela constitui um dom absolutamente gratuito de Deus, que a alma recebe sem que nada tenha feito para o merecer. Daí decorre a necessidade absoluta da prece humilde e confiante, em que o homem pede as graças necessárias para seu aperfeiçoamento espiritual.

A oração nos aparece, pois, ao cabo destas considerações, como elemento indispensável para o aperfeiçoamento moral do indivíduo.

A graça não tem, no entanto, como único veículo a oração particular. A Igreja também canaliza para seus filhos as graças sobrenaturais de que necessitam, através dos seus Sacramentos e do valiosíssimo recurso de sua oração oficial e do Santo Sacrifício da Missa, cujo valor exporemos em outro artigo.

Temos, pois, demonstrado que o progresso espiritual exige a oração. Por sua vez, demonstraremos agora que [a piedade] constitui uma aberração monstruosa, e quase sacrílega, quando desacompanhada do desejo sincero de um grande aperfeiçoamento espiritual.

Os favores se medem pelos benefícios que nos trazem. Os dons de Deus que nos auxiliam a conquistar uma felicidade precária neste mundo são, pois, imensamente menores do que os que Ele nos dá para conquistarmos a felicidade eterna. A desproporção entre os dons perecíveis e os imperecíveis é a que existe entre as almas, criadas para a eternidade, e os objetos materiais que o tempo destruirá.

Nestas condições, o católico é devedor de graças inapreciáveis, cuja rejeição constitui a alma ré de um delito que a torna abominável aos olhos da Justiça Divina.

A alma pecadora, que rejeita a graça, não está, pois, em estado de apresentar ao Criador atos de adoração, reparação, ação de graças ou louvor que lhe sejam agradáveis. Enquanto do altar em que se queimava o sacrifício de Abel subia um fumo que se elevava ao Trono de Deus, o fumo do sacrifício de Caim não se elevava no ar. A única oração feita pelo pecador, e que seja realmente agradável aos olhos de Deus, é o pedido sincero de que lhe dê forças para empreender seriamente a reforma de sua vida.

Um dilema, portanto, se nos impõe: ou a alma se serve da piedade como meio de aperfeiçoamento espiritual, e nesse caso o progresso espiritual deverá ser tão real quanto for intensa e séria a piedade, ou esta será apenas uma pieguice sentimental, detestável aos olhos de Deus e dos homens, ridícula aos olhos destes e quase sacrílega aos olhos daquele. Outro dilema também se impõe: ou a alma pede as graças necessárias para seu aperfeiçoamento espiritual, ou ela se verá reduzida às suas próprias forças, e portanto derrotada pela primeira tentação que a assaltar.

Sem progresso espiritual, não há verdadeira piedade. Sem piedade, não há verdadeiro progresso espiritual.
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