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terça-feira, 20 de maio de 2014

A ti caro ateu

Plinio Corrêa de Oliveira
"Folha de S. Paulo", 31 de agosto de 1980

"Caro"? O adjetivo pode causar estranheza a leitores que, pelos artigos da "Folha" como por outros meios, há décadas me vêem combater o ateísmo, precisamente no aspecto mais expansivamente imperialista que assumiu ao longo da História, isto é, o ateísmo marxista. "Caro": como então justificar o qualificativo? Explico-me.

Deus quer a salvação de todos: dos bons, para que recebam no Céu o prêmio de seus méritos; dos maus, para que, tocados pela graça, se emendem e alcancem o Céu. Em perspectivas e a títulos diversos, uns e outros são, portanto, caros a Deus. Como, então, podem não o ser ao católico? Caros, sim, até mesmo quando, para defender a Igreja e a cristandade, o católico os combate. Um cruzado poderia dizer com toda a sinceridade "caro irmão" ao maometano, no momento mesmo em que terçava rijamente armas com ele para a reconquista do Santo Sepulcro.

A expressão "caro ateu" é pois válida. E comporta até sentidos matizados. Pois oferece matizes o ateísmo. A cada um deles corresponde — como é natural — um sentido específico da palavra "caro". Assim, há ateus que se alegram com a convicção de que "Deus não existe". A tal ponto que se algum fato evidente — um milagre retumbante por exemplo — o convencesse do contrário, bem poderia acontecer que ele passasse a odiar a Deus, e até a matá-Lo, se fosse possível.

Outros ateus estão de tal maneira enchafurdados nas coisas da terra, que seu ateísmo não consiste em negar que Deus existe, mas em desinteressar-se inteiramente do assunto. Se é cabível a distinção, eles não são "ateus", no sentido mais radical e aliás corrente da palavra, mas "a-teus", ou seja, laicos. Concebem sem Deus a vida e o mundo. Caso se lhes provasse que Deus existe, veriam nEle um ser "con il quale o senza il quale, il mondo va tale quale". Sua reação consistiria em decretar contra Ele um total e perpétuo banimento dos assuntos terrenos.

Mas há um terceiro gênero de ateus. A este pertencem os que, acabrunhados pelos trabalhos e decepções da vida, e vendo bem, por amarga experiência pessoal, que as coisas desta terra não passam de "vaidade e aflição de espírito"(Eccles. 1, 14), gostariam que Deus existisse. Mas tropeçando nos sofismas do ateísmo, aos quais outrora haviam aberto o espírito, atados pelos hábitos mentais racionalistas a que aferraram a mente, tateiam agora nas trevas sem conseguir encontrar o Deus a quem outrora rejeitaram. Quando medito na apóstrofe de Jesus Cristo: "Vinde a mim, ó vós todos que estais sobrecarregados e fatigados, e eu vos restaurarei" (Mt. 11, 28), penso mais especialmente neste tipo de ateus. E tenho mais especialmente vontade de os chamar "caros ateus".

Assim fica explicado quais são os ateus a quem especialmente dirijo as presentes reflexões.

Entretanto, não é só a eles que tenho em vista, mas a outros leitores, e outros ainda, e muito mais especialmente caros. Isto é, a alguns irmãos na Fé católica, membros como eu do Corpo Místico de Nosso Senhor Jesus Cristo, os quais, tendo lido a referência por mim feita no artigo "Volta à Torre de Babel?" à espiritualidade de São Luís Maria Grignion de Montfort, desejaram que eu dissesse algo mais sobre o assunto através das colunas da "Folha".

Escrevo pois este artigo para estes últimos. Mas com olhos postos nos primeiros. Faço-o nesta "Folha" tão coerente com os princípios de liberdade de pensamento, os quais professa, que abre compreensivamente um espaço para mim (que certamente não sou um liberal!). Para que neste espaço eu diga o que me pareça. Ao considerar meus artigos, insertos entre tantos outros de rumo bem oposto, parece-me ver a "Folha" voltada para o público com um estandarte em punho (por certo não o rubro e leonino estandarte da TFP!), no qual se leriam estas palavras de Voltaire (ultraliberais, e também exemplarmente lógicas na perspectiva liberal): "Não concordo com uma só palavra do que dizeis, mas defenderei até a morte vosso direito de as dizer".

Pluralismo coerente é isto. E estão nos antípodas disto tantos jornais brasileiros que aos urros se jactam de seu pluralismo, mas recusam o menor espaço para um comentário – até para a menor notícia – de movimentos antipluralistas. Como se o pluralismo fosse absurdamente não-plural, e não consistisse na liberdade de discordar. Dir-se-ia até que, em tais jornais, há um politburo apostado em varrer da publicidade o pensamento "herético" antiplural.

Oh, como seria mais autêntica, mais intelectualizada e mais arejada a democracia brasileira, se seguissem a linha de ação enunciada naquela frase de Voltaire, tantos jornais brasileiros.
Falo agora aos ateus especialmente caros, na esperança de lhes tocar o fundo da alma, no mesmo texto em que falo para meus caríssimos irmãos na Fé.

Imagina-te, caro ateu, em alguns desses intervalos da vida quotidiana de outrora, no sossego dos quais subiam à tona do espírito as impressões aprazíveis e profundas que a faina do dia, carregada do pó da trivialidade e do suor do esforço, havia sufocado na subconsciência. Eram os espaçosos momentos de lazer, em que as saudades de um passado risonho, os encantos e as esperanças do presente duro mas luminoso, e as fantasias tantas vezes pérfidas faziam agradável ciranda para distender a alma "posta em sossego, [...] naquele engano da alma, ledo e cego, que a fortuna não deixa durar muito" (Camões, Lusíadas, canto 3º, estância 120).

Nos minguados momentos do lazer de hoje, pelo contrário, sobe à tona a neurótica sarabanda das decepções, das preocupações, das ambições descabeladas e dos cansaços exacerbados. E por sobre essa sarabanda paira uma pergunta acachapante, plúmbea, obscura: para que viver?

Sob o signo dessa pergunta, encerro o artigo de hoje. Até o próximo, caro ateu.
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